O que Morin nos oferece em Neurose e Necrose, antecipa, ou orienta, de forma intrigante muito do que vem sendo pensado nas últimas décadas sobre manipulação com o tema intitulado "Guerra Híbrida". Vejamos o que coloca
Lucio Lauro Massafferri Salles.
"Compartilho da observação de Byung-Chul Han1, quando ele diz que a ilusão de uma liberdade quase absoluta na chamada propagandística “Aonde você deseja ir” (o que deseja fazer?), usada pela empresa Microsoft na nascente dessa world wide web, transformou-se em controle total e vigilância, fundadas em uma paisagem de exposição digital sem fronteiras. Esse poder (um psicopoder) atua sobre as mentes muito mais do que sobre os corpos, exortando os sujeitos a falar, a se expor, a compartilhar irrefletidamente, chegando-se ao ponto da pessoa fornecer dados pessoais com pleno consentimento, como foi o caso dos nada ingênuos programas que ofereciam imagens de bichinhos que supostamente correspondiam às personalidades das pessoas que aceitavam interagir com esses aplicativos, antes de compartilhar a sua arte final. Olhando por esse ângulo, a liberdade sem fronteiras sugerida na nascente da internet na verdade é uma liberdade explorada, em vez de proibida. Em geral, os usuários acabam produzindo incessantemente o material que eles mesmos são exortados a consumir. E uma vez que seus dados, cliques, gostos, medos, desejos, já se encontram armazenados e catalogados, eles imediatamente estão prontos para processamento e mistura, como conteúdo que se disseminará no turbilhão de compartilhamentos e visualizações. Esse aspecto evidencia o quanto que essa comunicação digital é viral e extraordinariamente mais veloz do que mídias escritas, sendo capaz de atuar imediatamente, de maneira quase imperceptível, nas emoções e nas mentes dos usuários da rede."
Por mais que aqueles que não conhecem as teorias da comunicação, as teorias do cinema e outros campos do saber do século XX, acreditem que o aquilo que ocorre hoje via redes sociais e novas tecnologias é muito diferente, é óbvio que não é tão diferente assim. O que Massafferri Sales afirma não soa algo infamiliar a quem leu Morin, poçãor exemplo. Ou para quem estudou a manipula do espectador apontada nas Teorias do Cinema. Ou, ainda, para quem estudou os métodos de sugestão, persuasão e manipulação por meio da abordagem de algumas das tantas teorias da comunicação do século XX.
Vamos deixar aqui, para a apreciação dos leitores e como fio de meada para nossa próxima postagem -- na qual está conversa aqui continua --, um pequeno trecho de Neurose, de Morin. E, abaixo, o link da postagem completa, localizada aqui mesmo, no Comunhão do Cão.
"A Segunda colonização penetra na grande reserva que é a alma humana [...] A Segunda industrialização, que passa a ser a industrialização do espírito, a Segunda colonização, que passa a dizer respeito à alma progridem no decorrer do século XX. Através delas, opera-se esse progresso ininterrupto da técnica, não mais unicamente votado à organização exterior, mas penetrando no domínio interior do homem e ai derramando mercadorias culturais. [...] Essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo, os ectoplasmas de humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma (MORIN, 1962, p. 15-16)."
Bee mais um pouco do pensamento de Morin sobre a modificação da psique humana pelas novas tecnologias e seus desdobramentos socioculturais na postagem A Cultura de Massa no Século XX .
Saudações comunicativas e semiótica,
Salves!