sábado, 17 de agosto de 2024

A manipulação de hoje e as dicas de Morin

 O que Morin nos oferece em Neurose e Necrose, antecipa, ou orienta, de forma intrigante muito do que vem sendo pensado nas últimas décadas sobre manipulação com o tema intitulado "Guerra Híbrida". Vejamos o que coloca Lucio Lauro Massafferri Salles.

"Compartilho da observação de Byung-Chul Han1, quando ele diz que a ilusão de uma liberdade quase absoluta na chamada propagandística “Aonde você deseja ir” (o que deseja fazer?), usada pela empresa Microsoft na nascente dessa world wide web, transformou-se em controle total e vigilância, fundadas em uma paisagem de exposição digital sem fronteiras. Esse poder (um psicopoder) atua sobre as mentes muito mais do que sobre os corpos, exortando os sujeitos a falar, a se expor, a compartilhar irrefletidamente, chegando-se ao ponto da pessoa fornecer dados pessoais com pleno consentimento, como foi o caso dos nada ingênuos programas que ofereciam imagens de bichinhos que supostamente correspondiam às personalidades das pessoas que aceitavam interagir com esses aplicativos, antes de compartilhar a sua arte final. Olhando por esse ângulo, a liberdade sem fronteiras sugerida na nascente da internet na verdade é uma liberdade explorada, em vez de proibida. Em geral, os usuários acabam produzindo incessantemente o material que eles mesmos são exortados a consumir. E uma vez que seus dados, cliques, gostos, medos, desejos, já se encontram armazenados e catalogados, eles imediatamente estão prontos para processamento e mistura, como conteúdo que se disseminará no turbilhão de compartilhamentos e visualizações. Esse aspecto evidencia o quanto que essa comunicação digital é viral e extraordinariamente mais veloz do que mídias escritas, sendo capaz de atuar imediatamente, de maneira quase imperceptível, nas emoções e nas mentes dos usuários da rede."

Por mais que aqueles que não conhecem as teorias da comunicação, as teorias do cinema e outros campos do saber do século XX, acreditem que o aquilo que ocorre hoje via redes sociais e novas tecnologias é muito diferente, é óbvio que não é tão diferente assim. O que Massafferri Sales afirma não soa algo infamiliar a quem leu Morin, poçãor exemplo. Ou para quem estudou a manipula do espectador apontada nas Teorias do Cinema. Ou, ainda, para quem estudou os métodos de sugestão, persuasão e manipulação por meio da abordagem de algumas das tantas teorias da comunicação do século XX.

Vamos deixar aqui, para a apreciação dos leitores e como fio de meada para nossa próxima postagem -- na qual está conversa aqui continua --, um pequeno trecho de Neurose, de Morin. E, abaixo, o link da postagem completa, localizada aqui mesmo, no Comunhão do Cão.

"Segunda colonização penetra na grande reserva que é a alma humana [...] A Segunda industrializaçãoque passa a ser a industrialização do espírito, a Segunda colonização, que passa a dizer respeito à alma progridem no decorrer do século XX. Através delas, opera-se esse progresso ininterrupto da técnicanão mais unicamente votado à organização exteriormas penetrando no domínio interior do homem e ai derramando mercadorias culturais. [...] Essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo, os ectoplasmas de humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma (MORIN, 1962, p. 15-16)."

Bee mais um pouco do pensamento de Morin sobre a modificação da psique humana pelas novas tecnologias e seus desdobramentos socioculturais na postagem A Cultura de Massa no Século XX .

Saudações comunicativas e semiótica,

Salves!

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Um excelente mote para reflexões acerca dos temas comunicação e comunhão está na canção Sunshine de Arnaldo Baptista, transcrita, logo abaixo, em uma das postagens que figuram neste blog.

Se aproveitam

Se aproveitam
Gravura de Goya onde figuram os famosos saques feitos, pelos vencedores, após as batalhas.