sábado, 17 de agosto de 2024

Um povo que virou coisa

Sem liberdade, não é possível ser um sujeito, sem liberdade o sujeito vira coisa.

 “Mentir constantemente não tem como objetivo fazer com que as pessoas acreditem em uma mentira, mas garantir que ninguém mais acredite em nada. Um povo que já não consegue distinguir entre verdade e mentira não consegue distinguir o bem do mal. E um povo assim, privado do poder de pensar e julgar, está, sem saber nem querer, completamente submetido ao império da mentira. Com pessoas assim, você pode fazer o que quiser. “

– Hannah Arendt (14 de outubro de 1906 - 4 de dezembro de 1975)

A manipulação de hoje e as dicas de Morin

 O que Morin nos oferece em Neurose e Necrose, antecipa, ou orienta, de forma intrigante muito do que vem sendo pensado nas últimas décadas sobre manipulação com o tema intitulado "Guerra Híbrida". Vejamos o que coloca Lucio Lauro Massafferri Salles.

"Compartilho da observação de Byung-Chul Han1, quando ele diz que a ilusão de uma liberdade quase absoluta na chamada propagandística “Aonde você deseja ir” (o que deseja fazer?), usada pela empresa Microsoft na nascente dessa world wide web, transformou-se em controle total e vigilância, fundadas em uma paisagem de exposição digital sem fronteiras. Esse poder (um psicopoder) atua sobre as mentes muito mais do que sobre os corpos, exortando os sujeitos a falar, a se expor, a compartilhar irrefletidamente, chegando-se ao ponto da pessoa fornecer dados pessoais com pleno consentimento, como foi o caso dos nada ingênuos programas que ofereciam imagens de bichinhos que supostamente correspondiam às personalidades das pessoas que aceitavam interagir com esses aplicativos, antes de compartilhar a sua arte final. Olhando por esse ângulo, a liberdade sem fronteiras sugerida na nascente da internet na verdade é uma liberdade explorada, em vez de proibida. Em geral, os usuários acabam produzindo incessantemente o material que eles mesmos são exortados a consumir. E uma vez que seus dados, cliques, gostos, medos, desejos, já se encontram armazenados e catalogados, eles imediatamente estão prontos para processamento e mistura, como conteúdo que se disseminará no turbilhão de compartilhamentos e visualizações. Esse aspecto evidencia o quanto que essa comunicação digital é viral e extraordinariamente mais veloz do que mídias escritas, sendo capaz de atuar imediatamente, de maneira quase imperceptível, nas emoções e nas mentes dos usuários da rede."

Por mais que aqueles que não conhecem as teorias da comunicação, as teorias do cinema e outros campos do saber do século XX, acreditem que o aquilo que ocorre hoje via redes sociais e novas tecnologias é muito diferente, é óbvio que não é tão diferente assim. O que Massafferri Sales afirma não soa algo infamiliar a quem leu Morin, poçãor exemplo. Ou para quem estudou a manipula do espectador apontada nas Teorias do Cinema. Ou, ainda, para quem estudou os métodos de sugestão, persuasão e manipulação por meio da abordagem de algumas das tantas teorias da comunicação do século XX.

Vamos deixar aqui, para a apreciação dos leitores e como fio de meada para nossa próxima postagem -- na qual está conversa aqui continua --, um pequeno trecho de Neurose, de Morin. E, abaixo, o link da postagem completa, localizada aqui mesmo, no Comunhão do Cão.

"Segunda colonização penetra na grande reserva que é a alma humana [...] A Segunda industrializaçãoque passa a ser a industrialização do espírito, a Segunda colonização, que passa a dizer respeito à alma progridem no decorrer do século XX. Através delas, opera-se esse progresso ininterrupto da técnicanão mais unicamente votado à organização exteriormas penetrando no domínio interior do homem e ai derramando mercadorias culturais. [...] Essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo, os ectoplasmas de humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma (MORIN, 1962, p. 15-16)."

Bee mais um pouco do pensamento de Morin sobre a modificação da psique humana pelas novas tecnologias e seus desdobramentos socioculturais na postagem A Cultura de Massa no Século XX .

Saudações comunicativas e semiótica,

Salves!

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Sem palavras

Sem palavras!

quarta-feira, 25 de abril de 2007

"Flanar montado em bolhas de sabão. Robotização kafkiana. O pseudo. O nada. O prestígio. O signo. A representação. "

Abaixo, texto de Rogério Duprat de Início dos anos 70, publicado em Bondinho. O original à disposição do Comunhão do cão está em condições precárias. Processo de recuperação em andamento. Enquanto isso, leia esta representação abaixo. Mais um gênio da música brasileira que pensou, e muito bem, questões capitais da comunicação na era do capitalismo tardio.



ATENDENDO A INSISTENTES PEDIDOS DE PARENTES E AMIGOS,
DA IMPRENSA EM GERAL, O MAESTRO ROGÉRIO DUPRAT
VEM A PÚBLICO, INSINUANTE E CONTESTADOR, FALAZ E
INCISIVO, PARA DECLARAR A QUANTOS POSSA INTERESSAR
QUE ELE NADA TEM A DIZER ALÉM DO JÁ DITO.


Única atitude realmente radical seria suspender toda a atividade ao nível da representação: o espetáculo, a obra de arte ou de não-arte, a TV, o livro, o objeto de consumo, o status, a propaganda, o disco, a poesia, a venda, o filme, a cultura, o carro, a teoria, a imprensa, a música, a estrutura, todas as linguagens e toda a comunicação.
Todo o papo pop e contestativo foi ainda operação ao nível da representação, da imagem, do que aquele americano (?) chama de “pseudo-evento”.
Toda sociedade, primitiva ou não, viveu do ícone, do totem, que a cultura pop simplesmente maximizou criando uma sorte de pantotemismo. A chamada vanguarda e os teóricos da comunicação se encantaram com o signo, construindo uma pan-representação: o happening. A jogada dos artistas americanos – arte brinquedo de adulto – e o mesmo papo. A antropofagia (canibal mesmo ou teórico-oswaldiana): ingerir com o deglutido suas qualidades e virtudes, ou ainda eliminar os próprios pecados, defeitos e tabus. A aldeia maclunática, a loucura d automação, que pintava levar ao velho ideal do lazer e do ócio, só alterou as “áreas de representação”. Das antigas às novas religiões, do ícone concreto ao misti-semantismo.
A representação é a imagem, o pseudo-evento, a coisa da coisa, e a coisa.da.coisa.da.coisa, a imagem da imagem do evento, o signo do signo, encantamento pavlóvico das sociedades consumísticas ou não. Nesse mundo da representação, os sistemas acenam com a sedução do tópico: o artista, o gênio, a teoria, o barato, o cantor, a erva, o dinheiro, o livro etc...
operando em torno de topicidades, numa “aliança para o sucesso pela liquidação do típico”. Não basta constatar o pseudo-evento como pan-cultura: é preciso escapar dele, eliminar a representação, dar fim ao paradigma, que é a imagem-modelo, lead-behaviour, protótipo, e só pensar e viver o evento, a coisa, aquilo que a filosofia toda chamou de noesis, essências, sei lá mais o quê. As fossas são buscas frustradas de novas formas de representação (louca corrida atrás do novo). Os “artistas” se recusam a invadir o típico e a se confundir com ele: querem ainda ser tópicos, franksinatras e maotsetungs. O ídolo, o topo, o paradigma que alimenta o sistema e dele se alimenta. O sistema procura manter viva a idéia de representação e de que o sucesso está aberto a todos, transformando no processo qualquer anticódigo em novo código, jogando com o tato de que o próprio status de “gênio” é um pseudo-evento. É até possível imaginar-se um gênio frio, inventado, cuja existência acaba sendo legitimada pela zorra e pela imageria literária dos pasquins. O grupo OEL começou um treco desse tipo com um nome inventa – Loefgreen –, que sabia de todas as coisas e que já estava começando a ter certo sucesso... As citações não projeções grupais no sistema através de um tópico, de um pseudo-evento.
Tudo porque o único ato típico (evento) é a sobrevivência, e com ela o trabalho. Para isso, as sociedades construíram enormes edifícios-image (um macro semiótica), que é praticamente no que e para que vive o homem de hoje. Brucutu já era tópico: meia dúzia dos que se consideram mais aptos tomam o poder e cavalgam milhões de “mentecaptos”, salvando-se à base de manter viva a imagem, a representação, o código. A lei é o código máximo, a opressão.
Representar para não presentar. Signi-ficar para não eventuar. Sintatizar para não semantizar.
Estruturar para não realizar. Imagem contra objeto.
Manter-se no topo (ser tópico) exige desprezar o típico e os signos que lhe correspondem, que o representam. Os novos arautos da contracultura, engalanados com os aparatos, dizendo-se “marginalizados do sistema”, mas espreitando-lhe as brechas (talentosa e sub-repticiamente “esquecidas”, abertas pelo próprio sistema) que conduzem ao sucesso na cultura, na arte, no jornalismo, etc. E esse desprezo ao típico, ao trabalho, se evidencia na rejeição de signos que se tipificam no uso geral de office-boys da rua 15 ou das meninas da Mooca, e que recebem logo de vanguardeiros os nomes de careta, cafono, por aí afora.
A maior tristeza é a invasão da representação, da imagem, na área do trabalho: milhões sobrevivem base de ofícios pseudo-eventuais, que não existem: professores, corretores, motoristas, artistas, políticos, psicologistas, soldados, jornalistas, burocratas, juristas, espiões, etc., tudo, enfim, que serve para organizar, exigir ou iludir a aplicação dos códigos. Essa é a terrível imposição: compelir a maioria da humanidade a operar ao nível do código, daquilo que seria só uma forma de disciplinar o comportamento coletivo, e que acaba por se tornar a própria razão da existência do indivíduo e da sociedade. Flanar montado em bolhas de sabão. Robotização kafkiana. O pseudo. O nada. O prestígio. O signo. A representação. O chato é que, em cada caso, o fascínio do paradigma está lá, para tentação dos pretendendes-aprendizes-candidatos a topo. Por simples e elementar comparação, optar pela grande vida do prestígio e do sucesso é mais cômodo... A gênesis já dizia que no princípio era o verbo.

Rogério Duprat
5.4.72

quarta-feira, 18 de abril de 2007

A base social da "flânerie" é o jornalismo

A base social da flânerie é o jornalismo. É como flâneur que o literato se dirige ao mercado para se vender. No entanto, não se esgota com isso, de forma alguma, o aspecto social da flânerie. ‘Sabemos − diz Marx − que o valor de cada mercadoria é o definido através do quantum de trabalho materializado no seu valor de uso através do tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção.” (Marx, Das Kapital, ed. Korsch, Berlim, 1932, p. 188). O jornalista se comporta como flâneur, como se também soubesse disso. O tempo de trabalho socialmente necessário para a produção de sua força específica de trabalho é, de fato, relativamente elevado. No que ele se empenha em fazer com que suas horas de ociosidade no bulevar apareçam como uma sua parcela, ele o multiplica, multiplicando assim o valor de seu próprio trabalho. Aos seus olhos e também, muitas vezes, aos de seus patrões, esse valor adquire algo de fantástico. Contudo, isso não aconteceria se ele não estivesse na situação privilegiada de tornar o tempo de trabalho necessário à produção de seu valor de uso acessível à avaliação pública e geral, na medida em que o despende e, por assim dizer, o exibe, no bulevar. A imprensa gera uma torrente de informações, cujo efeito estimulante é tanto mais forte quanto mais desprovidas estejam de qualquer aproveitamento. (Apenas a ubiqüidade do leitor tornaria possível aproveitá-las; e assim se produz também a sua ilusão.) A relação real dessas informações com a existência social está determinada pela dependência dessa atividade informativa face aos interesses pela dependência dessa atividade informativa face aos interessados da Bolsa e por sua repercussão sobre eles − Com o desdobramento da atividade informativa, o trabalho espiritual se assenta parasitariamente sobre todo trabalho material, assim como o capital cada vez mais submete todo trabalho material.” (BENJAMIN, Walter. O Flâneur. In: Obras escolhidas III – Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 255).

domingo, 15 de abril de 2007

O Sorriso na era dos "mass media" por Tom Zé (1968)


No Lp TOM
de 1968
debocha-pensamentos sobre-no mass-sorriso


Palavras da Contracapa
(Por Tom Zé)

Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.
0
sorriso deve ser muito velho, apenas ganhou novas atribuições.
Hoje, industrializado, procurado, fotografado, caro (às vezes), o sorriso vende. Vende creme dental, passagens, analgésicos, fraldas, etc. E como a realidade sempre se confundiu com os gestos, a televisão prova diariamente, que ninguém mais pode ser infeliz.
Entretanto, quando os sorrisos descuidam, os noticiários mostram muita miséria.
Enfim, somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.(As vezes por outras coisas também).
É
que o cordeiro, de Deus convive com os pecados do mundo. E até ganhou uma condecoração.
Resta o catecismo, e nós todos perdidos.
Os
inocentes ainda não descobriram que se conseguiu apaziguar Cristo com os previlégios. (Naturalmente Cristo não foi consultado).
Adormecemos
em berço esplêndido e acordamos cremedentalizados, tergalizados, yêyêlizados, sambatizados e miss-ificados pela nossa própria máquina deteriorada de pensar.
"-Você é
compositor de música "jovem" ou de música "Brasileira"?"
A
alternativa é falsa para quem não aceita a juventude contraposta à brasilidade.. (Não interessa a conotação que emprestam à primeira palavra).
Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras.
Pois é que quando eu abri os olhos e vi, tive muito medo: pensei que todos iriam corar de vergonha, numa danação dilacerante.
Qual nada. A hipocrisiacom z?) havia atingido a indiferença divina da anestesia...
E assistindo a
tudo da sacada dos palacetes, o espelho mentiroso de mil olhos de múmias embalsamadas, que procurava retratar-me como um delinqüente.
Aqui, nesta sobremesa de preto pastel recheado com versos musicados e venenosos, eu lhes devolvo a imagem.
Providenciem
escudos, bandeiras, tranqüilizantes, anti-ácidos, antifiséticos e reguladores intestinais. Amem.

TOM .

P.S.

Nobili, Bernardo, Corisco, João Araújo, Shapiro, Satoru, Gauss, Os Versáteis, Os Brazões, Guilherme Araújo, O Quartetão, Sandino e Cozzela, (todos de avental) fizeram este pastel comigo.

A sociedade vai ter uma dor de barriga moral
O
mesmo




quinta-feira, 12 de abril de 2007

"não precisaremos de reforços ao teatro de máscaras porque, se queira ou não se queira, a massa onde praticamente nós perdemos já é a máscara [...]"


13/11
A literatura, o labirinto perquiridor da linguagem escrita, o contratempo, a literatura é a irmã siamesa do indivíduo. a idade das massas, evidentemente, não comporta mais a literatura como uma coisa viva e por isso em nossos dias ela estrebucha e vai morrer. a literatura tem a ver com a moral individual e a moral individual não interessa _ não existe mais. nossa época exige a descrição de painéis e o close-up tende a não interessar nem cosmopsicologia. não precisaremos de reforços ao teatro de máscaras porque, sequeira ou não se queira, a massa onde praticamente nós perdemos já é a máscara, já nos abriga e revela, é a supra máscara. planos gerais. painéis. O homem moderno não existe como um indivíduo, mas como tipos e esses tipos não são tantos quanto todos nós. São relativamente poucos. somente me interesso pelo tipo e cada tipo, classe, nas diversas sociedades massificadas, obedece a comportamentos mais ou menos standards. Interesso-me por compreendê-los (estudá-los) e abandoná-los. meu problema, inclusive o de cama, inclusive o de mesa, inclusive o de relacionamento, é o problema do meu tipo X perdido na massa que o plano geral não estilhaça, por literário, em todos os seus (milhares, bilhares) de “exemplos”: células que não tem mais vida se isoladas na psicologia do indivíduo. O cenário é agora o único personagem vivo. O cinema urbano tem que ser do-eu-meu-tal, atualizado como as atualidades, uma primeira página de jornal, painel, afresco.
Torquato Neto

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Em qual CANAL será a próxima GUERRA?

Sunshine
(Arnaldo Baptista)

I'm gonna see the rain of the sunshine
Antes do outro comercial
E baseado num céu genuíno
Estrear no carnaval

Não sei se a guerra é na próxima sexta
Ou se é lá no outro canal
Enquanto isso sinto a fome do rico
Nesse trânsito infernal

Quero cantar no meio da chuva
Lá no fundo quintal
I'm gonna see the rain of the sunshine
No eterno azul do mar

Sunshine, Sunshine

Eu sei que o mundo está superpopulado
Mas não há ninguém no meu quintal
Não sei se tenho o rei na barriga
Mas um frango não faz mal
.
.
Como vai você?
Tudo bem?
Assistiu ao futebol?
Podes crer, tudo bem, tudo, tudo isso
É melhor e não faz mal

C'mon
Listen to me
I wanna see
I wanna see the rain of the sunshine
[..]

C'mon!
Listen to me
I wanna see
I wanna see the rain of the sunshine
I wanna see
I wanna see the rain of the sunshine
Of the sunshine




Edgar Morin - O espírito do tempo - Neurose

A Cultura de Massa no Século XX

[...] a cultura de massa é uma cultura: ela constitui um corpo de símbolos, mitos e imagens concernentes à vida prática e à vida imaginária, um sistema de projeções e de identificações específicas. Ela se acrescenta, à cultura nacional, à cultura humanista, à cultura religiosa, e entra em concorrência com estas culturas (MORIN, 1967, p. 18).

Podemos adiantar que uma cultura constitui um corpo complexo de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade, estruturam os instintos, orientam as emoções. Esta penetração se efetua segundo trocas mentais de projeção e identificação polarizadas nos símbolos, mitos e imagens da cultura como nas personalidades míticas ou reais que encarnam os valores (os ancestrais, os heróis, os deuses). Uma cultura fornece pontos de apoio imaginários à vida prática, pontos de apoio práticos à vida imaginária; ela alimenta o ser semi-real, semi-imaginário, que cada um secreta no interior de si (sua alma), o ser semi-real, semi-imaginário que cada um secreta no exterior de si no qual se envolve (sua personalidade) (MORIN, 1967, p. 17).


O imaginário se estrutura segundo arquétipos: existem figurinos-modelo do espírito humano que ordenam os sonhos e, particularmente, os sonhos racionalizados que são os temas míticos ou romanescos. Regras, convenções, gêneros artísticos impõem estruturas exteriores às obras, enquanto situações tipo e personagens-tipo lhes fornecem as estruturas internas. A análise estrutural nos mostra que se pode reduzir os mitos a estruturas matemáticas. Ora, toda estrutura constante pode se conciliar com a norma industrial. A industria cultural persegue a demonstração à sua maneira, padronizando os grandes temas romanescos, fazendo cliches dos arquétipos em esteriótipos.

Praticamente fabricam-se romances sentimentais em cadeia, a partir de certos modelos tornados conscientes e racionalizados. Também o coração pode ser posto em conserva.(MORIN, 1962).

A Segunda colonização penetra na grande reserva que é a alma humana [...] A Segunda industrialização, que passa a ser a industrialização do espírito, a Segunda colonização, que passa a dizer respeito à alma progridem no decorrer do século XX. Através delas, opera-se esse progresso ininterrupto da técnica, não mais unicamente votado à organização exterior, mas penetrando no domínio interior do homem e ai derramando mercadorias culturais. [...] Essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo, os ectoplasmas de humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma (MORIN, 1962, p. 15-16).


Um excelente mote para reflexões acerca dos temas comunicação e comunhão está na canção Sunshine de Arnaldo Baptista, transcrita, logo abaixo, em uma das postagens que figuram neste blog.

Se aproveitam

Se aproveitam
Gravura de Goya onde figuram os famosos saques feitos, pelos vencedores, após as batalhas.